Nota da Autora 3
CAPÍTULO I 9
CAPÍTULO II 15
CAPÍTULO 3 31
CAPÍTULO 4 45
CAPÍTULO 5 55
CAPÍTULO 6 65
CAPÍTULO 7 71
CAPÍTULO 8 85
CAPÍTULO 9 95
CAPÍTULO 10 105
CAPÍTULO 11 113
CAPÍTULO 12 121
CAPÍTULO 13 129
CAPÍTULO 14 141
Não sei bem quando foi que senti vontade de escrever
um livro. Desconfio que tenha sido mais ou menos uns três
dias, após ter escrito minha primeira palavra. Desde aquele
dia penso muito na necessidade de registrar meus pensamen-
tos, caso eu venha a morrer de repente (quando é que não se
morre de repente?). Só assim todos poderiam saber como eu
fui uma pessoa legal, querida, bondosa, genial, engraçada,
batalhadora, carismática, linda, especial, linda, amada, já
falei “linda”? Eu sempre quis ser tudo isso e me enganei mui-
tas vezes achando que era tudo isso e perdi muito tempo e
energia tentando provar que eu era tudo isso. A verdade é que
fracassei demais, amei demais, perdi demais, ganhei demais,
ri demais, chorei mais ainda e quase desisti muitas e muitas
vezes (muitas mesmo!) de tentar ser alguma coisa.
Mas a vontade do livro me perseguia. Quero ser eter-
na, sabe? De pensar que daqui a cem anos vão estar me len-
do, me falando, me pensando, me sentindo… Tá, posso estar
mesmo me sentindo rs. Quem sabe até usando meu livro em
palestras e seminários; apoio de copos ou peso de papel?
Talvez seja muito cedo pra falar em Academia Brasi-
leira de Letras (com certeza é muito cedo), mas, por que não
desejar a imortalidade? Por que não desejar virar presente
de aniversário de pessoas que você nunca viu na vida? Ser a
melhor premiação de algum concurso (bingo, que seja) ou a
mais bonita lembrança de um namorado? Como nem tudo são
flores (graças a Deus, porque tenho alergia – rinite, sinusite,
todos esses “ites”), posso ter o triste fim do esquecimento.
Mas, sim, eu aceito todos os riscos.
Não poderia jamais ignorar a vontade de concretizar
este livro, mesmo porque sempre tive muitas ideias dentro
da minha cabeça. Aos poucos venho liberando algumas delas
ao universo e, de vez em quando, acabam pegando alguns
distraídos de surpresa. Tornando-as livres; às vezes alguns
amigos conseguem me ouvir, no entanto, muitas vezes retidas
elas ficam. Desta vez resolvi torná-las propositalmente públi-
cas.
O quê? Esqueci de alguma coisa? Ah, claro! O assunto
do livro é o seguinte: Após anos de muita pesquisa e laborató-
rios intensos, mexidas e remexidas no passado, presente e fu-
turo, finalmente o escolhi: Minha vida! Meus erros e acertos.
Minhas vitórias e meus inúmeros fracassos. Identifique-se ou
não. Ria ou não. Compre o livro ou nAAAAHHHHH VAI COM-
PRAR SIM!
Queridíssimo leitor, eis então – tambores a rufar – MEU
LIVRO! Modesto, mas meu. Só meu… e seu. Nosso, vai! O que
interessa mesmo é que o resultado disso tudo está bem aí, em
suas mãos, neste exato momento!
Compõem esta obra, histórias reais, bem fictícias sobre
fatos engraçados, às vezes sem graça alguma, sobre a inte-
ressante vida de Maíra Charken ou a vida de sei lá quem.
Nada de autobiografia, mas um pequeno manual do
que fazer e do que não fazer nesta aventura chamada vida.
Antecipo aqui meu projeto: primeiro escrevo um livro e mais
tarde faço um filme. Que tal? É óbvio que eu teria poupado um
bom tempo se tivesse carregado sempre comigo um gravador
desde o dia do meu nascimento. Assim, bastava transcrever
todas as minhas falas (inventá-las, quando necessário), edi-
tá-las, inseri-las num espaço e tempo (ou nenhum dos dois)
e contratar uma atriz para encená-las. Claro que essa atriz,
obrigatoriamente, seria eu, assim poderia reavaliar todas es-
sas falas. Curioso eu dizer “falas”, mas é exatamente assim
que encaro minhas intervenções sonoras neste mundo. “Se er-
rar, improvisa!”, já dizia o diretor. Na vida real é exatamente
assim que acontece, já que é tudo ao vivo. Infelizmente não
podemos voltar a cena e tentar tudo de novo, por isso, para
tornar a minha vida um filme de sucesso, uma boa edição será
mais do que necessária, afinal, ninguém consegue ser tão bri-
lhante o tempo todo, não é mesmo? Mas chega de rodeios.
Aproveite apenas o livro, por enquanto. O filme fica para uma
próxima. Ou melhor, para um cinema próximo de você.
Foi assim que eu comecei: nascendo. Todos começam
assim a vida, mas com os livros é diferente, cada um começa
do jeito que quiser (quando começa, claro). O meu, começarei
de onde julgo ser o início, mesmo que, de repente, não tenha
sido o início de coisa alguma, além da minha própria vida. E
eis o meu primeiro fracasso: meu nascimento! Nasci na Ho-
landa, o que só me trouxe confusões, indefinições e muitas
perguntas para responder toda vez que conhecesse alguém.
Não seria muito mais fácil eu ter nascido no Rio, onde moro,
onde nasceram meus pais, de onde vem meu sotaque? Mas
como nada na minha vida é fácil, por que seria o meu nasci-
mento? Também não estou aqui desdenhando minha origem
e todos os motivos (políticos, financeiros) que fizeram meus
pais sairem do país onde nasceram e tentar a vida num lu-
gar totalmente novo, desconhecido. E eles venceram! Fizeram
amigos e filhos na Holanda e, quando tudo ficou mais estável
novamente, voltaram.
Meu irmão uma vez me disse: “viver é sofrer” e que
exagero, pensei! Mas hoje, no topo dos meus 25 anos, vejo
que sofri pra cacetaaaaaa!!!!! Sofri pra nascer, sofri pra estu-
dar, sofri pra fazer amigos, sofri pra entender minha vocação,
sofri pra namorar, sofri pra me fazer ser entendida. E sofro
até hoje, mas com consciência. Podemos sim tirar proveito dos
nossos sofrimentos! Que delícia nunca sofrer, mas que maras-
mo também, não acham?
A verdade é que vivi um sofrimento intenso até me
descobrir (eu me descobri porque o mundo inteiro já sabia dis-
so) humorista! Meu Deus, então é isso!!!!
EUREKAAAA!!!
Eu era o que hoje chamo de Alma Penada Da Socieda-
de. Vivia no limbo das oportunidades. No vão de tudo o que
eu poderia ser e tinha condições para ser. Um ser penando de
um lado para o outro sem descanso, sem se encontrar.
Sempre invejei aquelas crianças-prodígio que com três anos
de idade tocam violino e reproduzem músicas que nunca ou-
viram na vida (alguns feitiços causam isso também, mas já é
assunto para outro livro). Nada prático ser um espetáculo de
circo em uma única pessoa. Ter talento e vocação para mais
de cinco atividades distintas, no Brasil, e antes dos anos 2000,
era quase ser uma aberração! Quantas vezes ouvi “foco, ga-
rota, você precisa ter foco!”. E foco é sim a chave do negócio!
Mas quem disse que não podemos focar em quinze
coisas na vida? Cada uma a seu tempo (mesmo que sejam 5
minutos), mas saber o que quer, saber o que deseja na vida
(e o que não deseja também), ter um goal, um objetivo, uma
meta, um sonho, um destino, um “chame do que quiser” é
essencial! Isso eu sempre tive! Se mentalizo que algo é meu,
leve o tempo que levar (geralmente leva muito tempo), eu
consigo! Não há uma boca que eu desejei que não tenha bei-
jado (mesmo que sob chantagem)!
Aos três anos eu já dizia que seria atriz, cantora e bai-
larina. Aos treze eu tinha certeza de que queria fazer novela
e gravar um cd (disco, vai!) e dançar no Municipal. Queria ser
famosa, ser ouvida, ser admirada, ser lida, ser olhada. Aos
vinte e três, deprimi, chorei durante quase um ano sem cessar.
Tinha certeza de que minha vida tinha acabado, já que
nada do que planejei havia acontecido. Onde estava a fama?
O dinheiro? As novelas? O marido? Os fãs? Era meu fim! Es-
tava velha demais pra tudo o que sonhei. Deprimi feio! Mas
deprimi criando. Sentei e escrevi por um ano. Tracei metas,
foquei de verdade, escrevi muita coisa que nunca foi publica-
da e que, possivelmente, nunca será e, quer saber? Isso não
me abala mais! Superei. Superei bonito! Tá certo. Nem foi tão
bonito assim, porque muitos fracassos ainda vieram. Incontá-
veis mesmo!
Falei “fracasso”? Caceta! Quem que você conhece que
já tenha fracassado? Várias pessoas fracassam, mas quem
assume e espalha o fracasso? Nunca conheci quem tivesse
levado uma porrada e se orgulhado disso. Todos que conheço
são vencedores, campeões, conquistadores, venceram na
vida. Entra lá no Face ou no Insta que você vai ver tanta gente
sendo promovida, amada, desejada, feliz, viajando horrores
e comendo lagosta todos os dias. Bullshit! Eu tô aqui fudida,
com dores nas juntas, queda de cabelo, sem dinheiro para o
ônibus, num relacionamento bosta e esperando que tudo me-
lhore um dia. Enquanto isso, vou postando minhas conquistas
e conquistando risos com os meus fracassos.
Cruel mesmo é você viver num lar amável, acolhedor,
que fecha os olhos para os seus defeitos e que, de repente, te
joga num mundo julgador, sem ter te preparado para isso.
Você sai mundo a fora se achando perfeita, linda, maravi-
lhosa e o mundo te diz “nada disso, gatinha, ponha-se no seu
lugar!”. Demorei para entender que o universo não estava ali
para me atender. Que existem outras pessoas na fila da vida
e que eu tenho sim que pegar senha e esperar a minha vez
chegar.
Um dia caiu a ficha. O que aconteceu comigo?
Eu costumava ser tão forte, determinada, decidida, ta-
lentosa, querida e linda. Minha família tinha medo de mim
e eu sempre amei isso. Sempre, desde os três anos, trabalhei
para me colocar no caminho certo do bonde do destino. Como
eu sabia que seria atriz? Simplesmente eu era! E que deve-
ria obter, de qualquer forma, um papel na novela das nove,
onde conheceria homens e mulheres ricos e glamurosos (mais
homens, claro), que idolatrariam uma bonita e jovem garo-
ta com atitude e senso de humor, e a amariam e a exibiriam
por aí, para que sua foto fosse publicada em jornais, revistas,
como sendo a grande revelação de todos os tempos. E como
eu sabia, quando vi Confissões de Adolescente, naquele dia (e
muitos outros depois) que tomei ciência de que eu devia fazer
tudo o que pudesse para me tornar uma daquelas pessoas ali
no palco, aquelas pessoas que fazem rir e fazem chorar con-
tando histórias verídicas ou não.
Você simplesmente sabe dessas coisas. Elas são instin-
tivas. Eu era toda instintiva então. Instinto cru, agressivo, e
vivi a minha vida como se uma coisa de outro mundo estives-
se me conduzindo. Até que chegou um dia em que essa coisa
toda mágica tinha ido embora. Ela havia falhado comigo.
Fiquei apavorada! Durante quase todo o tempo eu ti-
nha medo. Medo de quase todo mundo. Tinha medo dos dire-
tores, dos atores, dos autores, dos fotógrafos, dos colunistas,
qualquer pessoa que pudesse desaprovar qualquer atitude
ou palavra minha. Todos os jornalistas e cantores, todas as
pessoas talentosas, cheias de ideias e projetos e ideias que já
viraram projetos e também casais felizes e os não felizes tam-
bém. Isso engloba praticamente todo mundo na minha vida e
na vida de quem eu conheço e é exatamente por isso que, se
eu precisasse sair, tinha uma tendência quase que momentâ-
nea em ficar mortalmente doente, com uma certa urgência de
deixar a Covid com inveja. E, se não conseguisse representar
uma doença mortal, sentava num canto com as mãos enfia-
das entre as pernas, a cabeça pendendo sem vida sobre o pes-
coço e uma expressão blasé no rosto, o que sempre funcionou
muito para afastar conversas indesejáveis.
Contudo, nesse dia em particular, nenhuma quantidade
de doenças mortais poderia prevenir o inevitável: comparecer
ao primeiro teste de vídeo após meses sabáticos (desemprego,
esquecimento, rejeição e total limbo artístico, na verdade).